#666 - O Diabo
Tá amarrado!
O Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé de Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Coxo, o Tempa, o Azarape, o Coisa-Ruim, o Mafarro, o Pé-Preto, o Canho, o Duba-Dubá, o Rapaz, o Tristonho, o Não-sei-que-diga, O-que-nunca-se-ri, o Sem-Gracejos…
de Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas
O Diabo tem muitos nomes. Na boca do povo, mais ainda do que os nomes que a Igreja, a Bíblia, e a grande poesia épica deram a ele. E com os nomes, vêm as suas muitas identidades, que às vezes não são tão malvadas assim. O pacto, que coloca a sua alma pra jogo, pode ajudar quem souber lidar com o Tinhoso. E hoje nós vamos falar de algumas dessas encarnações do Mochila de Criança.
__O Inimigo dos Hebreus
O Satã cristão, que povoa os manuais dos Inquisidores, vem de uma longa construção histórica que começa na Antiguidade.
Os primeiros conceitos de demônios dos povos hebreus colocam os outros deuses além de Yahweh como demônios. Não porque os entendiam como mau absoluto, mas porque eram seus adversários nas disputas e conflitos locais, inimigos políticos e militares. Em um momento no qual este povo, que se entendia como o escolhido de Deus, tentava sobreviver em um ambiente insalubre.
Além disso, a partir do momento que o grosso dos povos semitas se convertem ao monoteísmo, as divindades do politeísmo de sua religião anterior e das outras religiões em volta também passam a ser combatidas. Juntamos a tudo isso a influência dos povos da Mesopotâmia e da Suméria, sobre os espíritos dos desertos e demônios, que entram na cultura dos hebreus principalmente no período que foram escravizados na Babilônia.

__O grande adversário da Cristandade
É dos hebreus que os cristãos herdam a figura de Satã. Inicialmente ele não tem uma personalidade própria e ainda é entendido como um anjo, um enviado de Deus para testar a fé de Jó. É com o caminhar da Antiguidade para a Idade Média que ele vai ganhando uma personalidade própria e se torna o símbolo do mal absoluto na concepção cristã.
Outra ideia que ajuda a alimentar o que se entende por Diabo são os daimones e agathos daimon, figuras dos gregos e romanos, especialmente influenciadas pela filosofia do Neoplatonismo, que propôs uma série de revisões na religião grega. Os daimones eram divindades pessoais, que acompanhavam os humanos, aconselhavam e traziam as mensagens da grande divindade. A concepção de daimone ajudou a criar a ideia do anjo da guarda, e ao mesmo tempo deu origem ao nome Demônio - em algumas traduções da Bíblia pelo grego, onde espíritos e divindades não cristãs foram designadas como “daimones”.
Mas esse grande Diabo só se consolida mesmo no imaginário cristão entre os séculos 14 e 15. Aí sim ele se torna o grande inimigo de Deus, em uma luta eterna contra Jesus Cristo e sempre tentando cooptar almas e destruir o rebanho cristão. Aos poucos, outros episódios bíblicos, como a queda do Paraíso, vão sendo colocados na alçada do Diabo.
Ele também se torna responsável por influenciar as almas no caminho da magia e da bruxaria. É quando surge a ideia do sabá, o grande culto satânico onde bruxas beijam um bode, deturpam os sacramentos da Igreja, pisam na cruz e devoram carne humana no lugar da hóstia. É tudo uma grande construção histórica, que demora muitos séculos para se consolidar nessa visão do Grande Inimigo da cristandade.
Esse Diabo é o Mal, que espreita o tempo todo. Ele anuncia o fim do mundo e quer levar a maior parte possível de almas para o Inferno no dia do Juízo Final. Por isso, a grande missão em exterminar bruxas, hereges e magos era justamente acabar com essa influência demoníaca. E isso justifica uma série de perseguições, do Tribunal do Santo Ofício à justiça comum, dos julgamentos de Salém a pequenas comunidades que enforcavam suas supostas bruxas.
__O Diabo não é tão feio quanto se pinta
Mas, por outro lado, o Diabo não era entendido como alguém tão ruim assim. Ao mesmo tempo que existe uma tradição religiosa institucional, que é também sustentada pela Demonologia e os manuais inquisitoriais, correm por fora outras interpretações. Inclusive, causando um grande problema para os homens letrados da Igreja, que se veem na missão de combater este mal absoluto.
Nas histórias contadas em volta das fogueiras, nos causos dos camponeses e dos moradores das áreas de floresta, o Diabo continuava sendo uma espécie de companheiro. Uma figura que herdou diretamente as funções dos espíritos da natureza, dos deuses locais e que conversa com outros seres desse imaginário. Quase que um santo, mas para quem promessas e acordos têm consequências muito mais complicadas, já que o santo não exige a sua alma em troca.
Na Inglaterra, temos a figura do Robin Goodfellow, do Puck e de outros seres considerados diabólicos, mas que estão mais próximos dos pixies e duendes que já habitavam o imaginário antes do cristianismo.
Em Portugal, os folcloristas do começo do século 20 ainda registraram histórias do Fradinho, do Diabo Coxo e do Mão Furada: diabinhos com quem você podia conversar e até barganhar proteção ou bens materiais. E que eram às vezes até meio inocentes, fáceis de serem enganados.
Até mesmo o Mefistófeles, o terrível diabo invocado por Fausto na clássica versão de Goethe, nasce como um diabinho, que aparece para um trato eventual. A história do Fausto, que tem origem na tradição oral europeia, passa por muitas versões e vai se modificando, até que no século 18, Goethe o transforma numa terrível alegoria do progresso. Talvez ilustre bem esse caminho: de espírito dúbio a inimigo, de presença real à metáfora.
__O pacto do violeiro e o mundo fantasmo
É dessas histórias que o Brasil cria toda uma tradição popular sobre Diabo. Ao mesmo tempo que o catolicismo português traz um demônio que precisamos temer, ele também entende que nenhum poder é maior do que Deus. E, ao mesmo tempo, o Diabo que chega a nós pelas tradições da cultura oral também guarda essa característica de ser uma figura quase humana, próxima, que habita ali atrás de um morro ou numa vereda do sertão.
Esse diabo está no cordel, na música popular, nas histórias contadas de boca em boca. Talvez você o conheça do Famaliá, o diabinho que algumas pessoas prendem na garrafa e soltam quando precisam de ajuda. Essa, sim, um filho direto das histórias de diabinhos portugueses guardados em caixas de prata e gestados em ovos de galinha preta.

Vemos o pacto com um Diabo não tão ruim assim se desenrolar no remake da novela Pantanal. Vemos todos os dias o peão Xeréu Trindade falar com e pelo Cramulhão, com quem ele fez um pacto: vendeu sua alma para ser o melhor violeiro de todos. E também o Inimigo avisa quando uma desgraça vai acontecer e já salvou a pele de algumas pessoas da fazenda com os seus avisos e premonições.
Mas não são todos os cantadores que caem nas artimanhas do Tinhoso. Câmara Cascudo nos traz a história de Joaquim Francisco Santana, o cantador pernambucano que teve a fama de ter derrotado o Diabo num desafio. Diz a boca do povo que em uma disputa de viola é possível afastar o Satanás com ladainhas, exorcismos e ofícios de Nossa Senhora.
Outro pacto que ressoa as nossas tradições é o de Riobaldo, o jagunço protagonista de Grande Sertão: Veredas, escrito por Guimarães Rosa. O Diabo e o mundo fantasmo (ou seja, os espíritos e fantasmas) é uma presença que sempre está na mente de Riobaldo, espreitando, até que um dia ele vai à vereda morta, chama pelo Diabo e faz um pacto. E aí ele toma coragem para se assumir como líder do bando de jagunços. O fascinante da presença do Demônio em Grande Sertão é que Guimarães Rosa a constrói em um meio do caminho. Ela nunca é clara, nunca temos certeza se o Homem é uma realidade ou se, na verdade, é só uma parte de nós mesmos.
__Referências
O Diabo no Imaginário Cristão - Carlos Roberto Nogueira
Dicionário do Folclore Brasileiro - Câmara Cascudo
História do Medo no Ocidente - Jean Delumeau
Então até a próxima, pessoal!
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